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sábado, 21 de março de 2015

Eu Sei!


Situada em plena rua da Concórdia, em Recife, aquela loja de motos parecia aludir a um tipo especial de compra que pressupunha concordâncias.

Alguns, por já possuírem moto, não desaprovavam a compra. No máximo observavam: há de se ter muito cuidado!

Outros, mais precavidos, talvez mais realistas e íntimos, diziam: estás doido? O pára choques de motos são os peitos do motociclista!

Inseguro pela falta de incentivos convincentes, parti para essa nova experiência. Escolhi uma manhã de sábado, nos idos de 1978, para dirigir-me à Moto Parts, e lá comprar a minha moto.

Recebeu-me o vendedor, que foi logo dizendo, "aqui é assim: comprou, levou". Logo mais, você já sairá daqui com ela.

Perguntei:

- Mas como isso será possível, se nunca andei de moto?

O vendedor era dos melhores! Tratou de afastar quaisquer obstáculos. Não há muito o que fazer, disse ele, e continuou: por acaso já não andastes de bicicleta? Pois é muito parecido! Equilibrar-te já sabes. Motos também têm marchas, o freio é quase igual... O que têm a mais? Só a embreagem e o acelerador! Após cinco minutos volteando com ela no estacionamento à frente, estarás habilitado para ir aonde quiseres.

Eu queria apenas ir direto para a minha casa. Afinal, não era tão longe. Resolvi apressar a compra, para evitar a hora do "rush".

O "treinamento" por dentro do estacionamento não durou mais que uns dez minutos. Senti-me confiante por ter conseguido me desviar dos carros ali parados, e principalmente dar saída na moto de modo decente. Nada que me distinguisse de motociclistas experientes. E olhem que fiz isso umas duas, três, quatro vezes seguidas.

O vendedor, ainda ao meu lado, assistiu temeroso "aos finos" que eu tirava nos veículos ali estacionados. Por fim tratou de me aplaudir, e dar o curso por encerrado. Aproximava-se o meio dia, e chegara a hora do seu almoço.  Por ele, eu estava pronto para ir embora. Quanto a mim, já era hora de por a moto na rua, enquanto o trânsito era favorável.

Devagar e pelo canto do meio fio, guiei aquele objeto ainda totalmente estranho, afastando-me do centro comercial da cidade pelas ruas principais.

Alcancei enfim a Av. Abdias de Carvalho, onde parei em um semáforo nas imediações da Sede da Chesf, onde então eu trabalhava. Posicionei-me à frente dos carros, que também esperavam, como sempre ansiosos, a abertura do sinal.

Menos inseguro, afinal já fazia vinte minutos que eu conduzia motos, não era mais pelos cantos que eu andava. Ocupava agora a posição de um carro, e a frente dos demais.

Finalmente o sinal mudou, e mal o verde lá apareceu, coloquei na moto a marcha primeira, e foi quando, ao acelerar, acelerei demais. O que se seguiu, por prudência, jamais faria outra vez. Apesar da forte impressão que causei.

Arranquei com o pneu da frente da moto levantado bem alto do chão. Por uns quatro a cinco metros,  a moto seguiu inclinada, andando só com a roda traseira. Devem ter me achado um gaiato, que logo após a gaiatice, retomava os ares sérios de quem nada fez de errado.

Depois dessa, nada mais aconteceu de formidável. Afinal eu estava quase chegando em casa, pois à época ainda morava nas imediações do meu trabalho.

Começaram então os meus cuidados iniciais com a moto, que além das manutenções necessárias, incluíam as frequentes lavagens. Com o passar do tempo, permaneceriam apenas os cuidados com as manutenções.

Foram quinze anos de uso permanente, no sol e na chuva. Mudei para Aldeia e os percursos diários mais longos, tornaram ainda maiores os cuidados mecânicos, em proporção inversa aos cuidados com a limpeza. Minha moto era ótima, e suja.

Com seu tanque geralmente empoeirado das constante passagens pela estrada de Aldeia, não raro a encontrava com mensagens escritas a dedo. Naturalmente, por alguém que não tendo o que fazer, deixava inscritas aquelas coisas do tipo: "Por favor me lave.", "Sei onde tem água." etc.

A propósito, um velho amigo e ex-colega de trabalho, outro dia relembrava com muita graça, um fato por ele presenciado, o qual jamais esqueceu.

Estávamos em uma área da empresa para um desses cursos de treinamento interno, onde também funcionava o setor de transportes. 

Durante um dos intervalos, conversávamos no pátio a poucos metros de onde eu estacionara a moto. Vimos quando dela se aproximaram dois motoristas, que passaram a observá-la com visíveis ares de desaprovação. 

Estávamos tão perto, que pudemos ouvir quando um deles comentou: Eu não sei como pode alguém deixar uma moto ficar em um estado desses.

Foi quando diante da expectativa do amigo Toim em relação à minha reação, voltei-me para ele e disse:

- Eu sei!

O incômodo das pessoas em relação à aparência que não raro a minha moto exibia, haveria de se manifestar outras vezes. Nenhuma achei tão marcante quanto a que, para concluir, passarei a relatar.

Certo dia, ao chegar ao meu local de trabalho, eu ainda terminava de estacionar a moto onde diariamente o fazia, quando aproximou-se de mim um garoto lavador de carros. 

Ele foi direto ao assunto:

- Quer que eu lave?

Respondi:

- Não. Obrigado!

No dia seguinte, a cena se repetiria:

Mal eu estacionei a moto, e aproximou-se o mesmo garoto outra vez:

- Quer que eu lave?

- Não. Obrigado!

No terceiro dia, antes mesmo de estacionar, já me esperava sentado no meio fio aquele garoto.

Achei que não bastava responder laconicamente. Desse jeito aquela insistência iria continuar. O garoto, mais do que querer lavar, estava mesmo era incomodado com aquela sujeira na moto. Talvez fosse sobretudo aquele barro ressecado, pregado sobre o motor, resultado da combinação da água de poças de lama e sol escaldante.

Pela terceira vez, pelo terceiro dia, o lavador de carros (e motos) insistiu:

- Quer que eu lave?

Resolvi ser um pouco prolixo, e didático. Por isso respondi:

- Olhe, eu só costumo lavar essa moto uma vez por ano! E esse ano eu já lavei.

Fim da tarde, saída do trabalho, dirigi-me ao estacionamento. Quase não encontro a minha moto. De tão limpa tornara-se para mim irreconhecível. O garoto perdera de vez a paciência. Lavou-a como se fosse dele. Até um polimento ele deu! Não deu mais para suportar! E quanto ao garoto? Sumiu! Aquela foi a última vez que o vi!

Pensei:

- Garotinho neurótico!

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