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Apenas mais um Blog.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

História de um bom Brâmane.



Deputado  Tiririca, 
eleito 
Deputado Federal,
pelo 
Estado de São Paulo.


Você, Tiririca, não é o único, longe disso! Você não é o maior, e talvez até não mais mereça ser considerado o símbolo da Câmara dos Deputados Federais desse nosso lastimoso país. Isso é dedutível após assistirmos ao espetáculo degradante de ontem, que nos revelou a presença ali de uma indigência mental maior do que poderíamos imaginar. Você trocou de picadeiro, e de onde antes se fazia palhaço, agora nos faz de palhaços. Mas você só representa aqueles que o elegeram, e faz isso  muito bem. A noite de ontem revelou uma incrível falta de representatividade da nossa sociedade em plenário, porque seria considerar a nossa sociedade de todo desprezível, se achasse o contrário. Claro que há bobinhos entre nós, e até esses têm o direito, em uma sociedade democrática,  de terem por lá  seus representantes. A ideia é porém que haja proporcionalidade na sua representação em plenário, pois que recuso-me a acreditar que somos o que assisti ontem, embora, é claro, exista quem assim o seja entre nós. Lembrei desse ensaio de Voltaire, que nos vem bem a propósito:


Um Ensaio de Voltaire (1779)

Em minhas viagens encontrei um velho Brâmane, homem muito sábio, cheio de espírito e muito erudito; ademais ele era rico e, por isso mesmo, ainda mais sábio, pois, não lhe faltando nada não precisava roubar ninguém. Sua casa era muito bem governada por três belas mulheres que se esforçavam por agradá-lo e, quando ele não estava se divertindo com elas, se ocupava da filosofia. 

Perto de sua casa, que era bela, bem ornada, e ladeada de graciosos jardins, morava uma velha indiana, beata, imbecil, e muito pobre.
O Brâmane disse-me um dia:
- Queria nunca ter nascido.
Eu perguntei por quê, e ele respondeu:
- Há 40 anos eu estudo, são quarenta anos perdidos; ensino os outros, e tudo ignoro: tal estado enche minha alma de tanta humilhação e desgosto que minha vida me é insuportável. Nasci, vivo no tempo e não sei o que é o tempo; encontro-me num ponto entre duas eternidades, como dizem nossos sábios, e não tenho ideia do que seja a eternidade. Sou composto de matéria, penso, e jamais pude me instruir acerca daquilo que produz o pensamento; ignoro se  meu entendimento é em mim uma simples faculdade, como a de andar ou diferir e se penso com minha cabeça do mesmo modo que pego meus objetos com minha mão. Não só o princípio do meu pensamento me é desconhecido, como o princípio de meus movimentos me é igualmente velado: não sei porque existo. Entretanto a cada dia perguntam-me sobre todos esses assuntos: é preciso responder às pessoas e eu não tenho nada que preste para lhes dizer; falo muito e fico confuso e envergonhado de mim depois de falar. É ainda pior quando me perguntam se Brahma foi feito por Vishnu ou se eles são eternos. Deus é testemunha de que eu não sei nada, e isso se percebe em minhas respostas. Dizem-me: - "Ah, meu reverendo pai, ensine-nos como o mal inunda a Terra". Minha inquietação é tão grande quanto a daqueles que fazem tal pergunta; às vezes digo-lhes que tudo vai o melhor possível; mas aqueles que foram arruinados ou mutilados na guerra não acreditam em nada disso, e eu tampouco: volto para casa oprimido por minha curiosidade e ignorância. Leio nossos livros antigos, e eles redobram minha trevas. Falo com meus companheiros: uns dizem que é preciso gozar a vida e escarnecer dos homens, outros pensam saber alguma coisa e se perdem em ideias extravagantes: tudo isso aumenta o doloroso sentimento que me assola. às vezes estou prestes a cair no desespero, quando penso que depois de todo o meu estudo, não sei nem de onde vim, nem o que sou, nem para onde vou, nem o que me tornarei. 

O estado deste homem causou-me  verdadeira pena: ninguém era tão razoável nem tinha tanta boa-fé quanto ele. Considerei que quanto mais ele tinha de luz em seu entendimento e de sensibilidade em seu coração, mais infeliz ele era. 

No mesmo dia, vi a velha senhora que morava em sua vizinhança. Perguntei se nunca se afligia por não saber como era feita a sua alma. Ela não apenas não entendeu minha pergunta, como não havia nunca, nem por um minuto em sua vida, refletido sobre uma única das questões que atormentavam o brâmane; acreditava piamente nas metamorfoses de Vishnu e, uma vez que podia se lavar eventualmente com as águas do Ganges, considerava-se a mais feliz das mulheres.

Comovido com a felicidade dessa pobre criatura, voltei ao meu filósofo e lhe disse:
- O senhor não se envergonha de ser infeliz quando à sua porta há uma velha que vive como um autômato, que não pensa em nada e vive contente?
- Tem razão - respondeu ele. - Cem vezes pensei comigo que seria feliz se fosse tolo  como minha vizinha e, contudo não desejo tal felicidade.

Essa resposta do meu brâmane me impressionou mais do que todo o resto: examinei a mim mesmo e vi que não queria ser feliz com a condição de ser imbecil. 

Propus a questão a alguns filósofos e eles concordaram comigo. 
- Há, entretanto, uma gritante contradição dessa maneira de pensar - dizia eu -, pois enfim, de que é que se trata? De ser feliz. Que importa se temos espírito ou se somos tolos? E tem mais: aqueles que são contentes têm certeza que são contentes; mas aqueles que raciocinam não têm tanta certeza de que raciocinam bem. Fica claro, portanto, que seria preciso escolher não ter o senso comum, por pouco que este contribua para o nosso mal-estar.

Todos aprovaram a minha opinião, e, entretanto, não encontrei ninguém que quisesse aceitar o negócio de tornar-se imbecil para ser feliz. Donde concluí  que, se estimamos a felicidade, estimamos ainda mais a razão. Mas, depois de refletir, parece-me uma grande insensatez preferir a razão à felicidade. Então como se explica essa contradição? Como todas as outras. Sobre isso há muito que falar.     

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Concluímos 2015!


video



Rendi-me finalmente à grandeza espiritual do Papa, cuja mensagem com vocês agora compartilho. A mensagem demonstra a sua disposição em defender os reais valores da vida.


O faz quando vivemos o apagar de um ano desanimador por vários aspectos.

Já vem de muito tempo o desencanto com o papel das igrejas, através do mau exemplo dos que se dizem religiosos, e sobretudo dos que fazem parte da sua hierarquia.

Desencantos também com a política pelo predomínio dos maus políticos.

E o desencanto parece expandir-se entre nós, de modo a alcançar os campos econômico, social e até mesmo em muitos casos, o restrito plano familiar!

Primeiro o ataque à Charles Hebdo em Paris, no início do ano, até as intolerâncias inter-pessoais por desacordos de pensamentos, que caracterizaram 2015.

Tudo contribuiu para um enorme  desencanto de uns com OS OUTROS.

Apesar de que 2015 não foi só isso, os aspectos negativos recendem como um mal cheiro que procede de um jardim de onde preferiríamos sentir o perfume das flores.

Não há como pretender que ocorram mudanças para melhor, no bem estar geral das vidas, a partir dessa matéria da qual somos feitos.

Mas, assim como a humanidade já teve anos piores, os teve melhores!

Tão admirável no Papa é a força da sua mensagem, quanto à sua crença de que possam escutá-lo.

O que ouvimos e que deveria calar fundo dentro de nós, e servir para uma reformulação interior, tendemos a achar que serve melhor para o outro.

A real mudança que o mundo precisa parece claro que só será possível, se começar no interior de cada um.

Espera-se milênios que isso aconteça! Por um lado, o surgimento no mundo de uma consciência ecológica, apontou em uma direção promissora, como sinal de uma evolução na consciência da nossa espécie!

Por outro lado persistem as guerras e demais loucuras nacionais do universo, e nos faz pessimistas quanto aos reais avanços.

Dois aspectos porém são relevantes admitir:

1. Em que pese tantas decepções, injustiças, tristezas e mortes em vida, aos quais essa existência nos submete, podemos "tocar o nosso barco", praticando a arte de viver o melhor possível apesar de tudo, apesar do todo.

A vocês desejo, que mais que em um simples barco, seja em um possante jet ski, que continuem como sempre, passando por sobre as ondas revoltas da vida, com a mesma força e potência, das palavras do Papa Francisco.

Ninguém há de sentir-se único ao navegar pelas ondas revoltas desse mar da vida. Lhes sou solidário nessa viagem atlética de desafios olímpicos, enfrentados por nós, alguns mais e outros menos.

2. Por fim, quem sabe? Não estará distante o dia, que romperemos os nossos limites biológicos e beneficiados pelo "design inteligente", ingressaremos em uma era por demais promissora.
Um Up Grade incrível nas condições terrenas, que de "o Haiti (espiritual) é aqui", passaríamos a "o PARAISO é aqui". Afinal, O FIM das motivações extra - terrenas.

Mas será que melhor mesmo não seria continuar homo-sapiens?

Um grande abraço a todos, tenham o melhor dos anos, pretendamos o quase impossível:
"alegria na tristeza!"

E como dizia outro Francisco,

Paz e Bem!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Hoje É Dia De Um INCRÍVEL JUBILEU!!!


 Sydney, Juracy e eu!

Hoje é dia de um incrível jubileu!
Não é que o tempo logo passe.
Penso que o tempo nem liga para a gente.
Mas, é que há lembranças que permanecem vívidas, de tão boas e intensas.
A que hoje relembro e festejo, é dessas.
Faria tudo de novo.
Se pudesse escolher, de preferência escolheria começar pelo final, nele me demorando um bocado.
Justificado isso estaria pela proximidade maior do meu AGORA, e das alegrias vividas ao longo dessas duas últimas décadas.
Elas puderam ser por mim muito bem aproveitadas.
O momento é portanto de fazer UM BRINDE.
Não um brinde à aposentadoria ou mesmo à vida.
Um brinde, isso sim, ao que de melhor podemos fazer com ELAS.

Aproveito então para compartilhar com vocês, a minha mensagem de "despedida":

Caros Colegas,

Iniciei na Chesf em 09 de setembro de 1974.
Portanto há 21 anos.
Foi a execução de um Projeto a longo prazo.
Este Projeto surgira, quando dez anos antes, eu ainda estudava para fazer o meu vestibular.
Do Projeto passei ao seu Planejamento, após ser submetido aos “Ensaios de Rotina”, durante o meu Curso de Mestrado na chamada “Escola de Campina Grande”.
Finalmente na Chesf, fui Comissionado para operar inicialmente na Gerência Regional de Salvador.
Lá permaneci energizado, literalmente falando, durante quase quatro anos.
Diferentemente de alguns bancos de capacitores e reatores que nem sempre precisavam estar ligados, estive por todo este tempo operando continuamente.
Ali, nem sempre era possível trabalhar submetido às próprias condições nominais, pois que constantes sobrecargas precisavam me ser impostas, para que fosse possível assegurar a confiabilidade do sistema.
Tenho bem vivos em em minha memória, incríveis momentos de grandes contingências operacionais e pessoais.
Elas misturavam-se ao longo das intensas jornadas de manutenções e requisições da operação.
Lembrarei para sempre das manutenções que, quando programadas, eram infalivelmente para serem realizadas durante os regimes de carga leve dos sábados e domingos.
Lembrarei, em particular, dos Compensadores Síncronos da SE Matatu, que por serem imprescindíveis ao Sistema, tinham as suas manutenções preventivas programadas para a partir da zero hora.
Foi porém durante os desligamentos acidentais, que pude sentir a quantas ia a minha pressão arterial.
Ela aumentava junto com as batidas do meu coração.
Por falar em desligamento, os desligamentos, em geral, costumam mesmo fazer bater mais depressa os corações.
Lá na Bahia, aquele tempo era anterior à Subestação de Camaçari, a qual só entrou em operação depois de mim!
Pituçu só existia no papel.
Mas era tempo da Usina Flutuante de Aratu.
Já estavam lá as SE´s de Matatu, Cotegipe, Catu, Governador Mangabeira e Funil.
Embora já desativada, também ainda existia para quem quisesse ir conhecer, a outrora tão importante Usina de Bananeiras! Que um dia supriu Salvador.
Portanto, lá na Bahia, eu sempre tive muito para onde ir!
Também foi um tempo rico de Folclore.
Lembro do histórico Ensaio de Malha de Terra, no qual Sérgio Ferreira contava, que ao enfiar a haste no solo, depois de abrir uma picada pelo meio do mato, assustou-se ao ver jorrar petróleo. Na realidade, apesar da decantada riqueza do solo baiano, ele apenas acertara bem em cima de um oleoduto da Petrobrás.
Lembro do dia em que o zeloso Operador Encarregado de uma Subestação, exigiu nervosamente ao colega Dorgival, que fosse dispensado aos Operadores da sua Subestação, um tratamento “unifilar” para todos.
Naquela época, o Despacho de Carga situava-se na própria SE Matatu, um lugar para onde o mesmo Dorgival ia com muita freqüência, pois morava em uma residência situada em terreno da própria subestação. Não admira que, tendo em vista a natureza mística da Bahia, certo dia, ao ser procurado por um amigo, a empregada de sua casa informou que ele havia saído para “fazer um despacho”.
Entre tantas e tão curiosas histórias, lembro contudo de uma que gostaria de destacar, porque há nela um aspecto que me chamou a atenção.
Eu alcancei o tempo em que a Chesf ainda operava as Subestações de apenas 69 kV. Havia então uma pequena Subestação, situada no alto de uma colina, a qual supria uma cidade cujas luzes podiam dela ser avistadas, ao anoitecer.
Certo dia um Operador desta SE, convidou um amigo para ir com ele à noite visitar a Subestação. Lá chegando, colocou-se à frente do painel de comando, junto à chave que comandava o disjuntor geral, e disse para o amigo: “estás vendo aquelas luzes todas lá embaixo? Se eu quiser, apago é tudo. Quer ver?” E em seguida abriu o disjuntor geral. “Não disse?” Agora, se quiser eu ligo”. E fechou o disjuntor geral. Em seguida ainda repetiu a demonstração! Ligando e desligando o disjuntor geral, dizia: “ apagou, acendeu, apagou, acendeu...”. O amigo dele deve ter ficado extasiado com a demonstração.
De fato, para aquele Operador, embora lhe faltasse compreender o espírito da coisa, só não era mesmo possível apagar, da sua consciência, a importância que tinha o seu trabalho.
Ele se sentia orgulhoso por ser Operador daquela pequena Subestação. Apenas necessitou demonstrar este seu orgulho de uma forma desastrada, ainda que convincente.
Por ter começado a minha vida na Chesf na Bahia, este sentimento da importância do trabalho que todos nós desempenhamos, para uma Empresa do alcance social da Chesf, foi portanto em mim, um sentimento baiano de nascimento.
E que prosseguiu depois em Recife, para onde fui “remanejado” a partir de janeiro de 78.
Vim atraído por um instante verdadeiramente importante da vida profissional dos que então já trabalhavam na Chesf. Foi a época da “chegada do 500 kV”.
Inicialmente, foram outros quatro anos de trabalho no antigo DTE, onde a maior parte do tempo participei do Comissionamento das nossas instalações de 500 kV, no antigo GPCS.
Foi naquela época que a palavra Comissionamento se popularizou. A propósito, um dia eu viajava para Teresina, quando durante o vôo, um passageiro ao meu lado me perguntou: “Onde você trabalha?” Respondi que trabalhava na Chesf. Em seguida, ele me perguntou: “E o que é a Chesf?” Eu então lhe expliquei. Prosseguiu ele, desta vez indagando: “E o que é que você faz na Chesf?” Respondi: trabalho no Comissionamento. E foi aí que ele perguntou: “E de quanto é a comissão?”
Pouco antes porém de trabalhar no “Comissionamento”, participei juntamente com os colegas Mário Kano, Alexander Saunders e Luiz Augusto, da criação da Divisão de Subestações – a antiga DOSE.
De Mário Kano, do folclórico Mário Kano, lembro de como costumava preparar-se minunciosamente para as reuniões que coordenava. Certa vez, ele iniciou uma reunião, dizendo: “Caros Colegas, tenho algumas perguntas para fazer, a cada um de vocês. Porém para facilitar, já trago prontas todas as respostas que será possível vocês darem a cada pergunta que eu fizer. Portanto, nossa reunião deverá ser como acontece naquela hora de um casamento, na qual o padre pergunta, e aos noivos  basta  responder SIM ou Não.”
Foi daquela época o meu relacionamento profissional com Luiz Fernando, que conheci quando ainda trabalhava em Salvador, o qual, sempre que me convidava para ir trabalhar com ele na DEEQ  (atualmente DEBS), acontecia de eu terminar sendo transferido do órgão onde estava lotado, para algum outro lugar.
Os seus convites sempre me ajudaram a ser transferido. Primeiro, do SOTS de Salvador para o DTE em Recife. E depois, do GCPS para a DOEL.
Até hoje porém, tenho a impressão de ter trabalhado também, na antiga DEEQ!
E finalmente em 82 cheguei à DOEL, onde permaneci durante 13 anos.
A DOEL de Saulo, de Graça, de Ceça, de Àlvaro, a DOEL de Noronha, de Edjair, a DOEL de Sydney, TOIM... A DOEL de tantos quantos lá estiveram, desde o seu começo, a DOEL dos demais que ao chegar encontrei, daqueles que foram chegando depois, a DOEL dos que estão acabando de chegar, a DOEL de todos nós.
Guardarei deste período da minha vida na Chesf, preciosas recordações. O privilégio de ter um dia convivido com vocês, enriqueceu-me sobre os mais variados aspectos, tornando esta fase, para mim, de valor inestimável.
Sinto-me feliz por ter podido participar ao lado de vocês, da construção dos nossos ideais profissionais, tendo sempre a preocupação de preservar os valores essenciais da vida.
Por tudo isso é que desejo ressaltar que gostaria que isso pudesse não ser considerado uma despedida! Gosto muito de todos vocês. Sei que tenho muitos amigos na Chesf, muitos estão aqui presentes. Continuaremos a nos encontrar e a trocar idéias, ainda que de forma menos rotineira. Diminuiremos as horas de convivência, mas poderemos nos esmerar na qualidade dos momentos que, a partir de agora, nos for dado conviver.
Minhas palavras finais não poderiam ser senão de agradecimento a todos vocês, por cada um dos momentos que me foi permitido conviver, usufruindo das ricas oportunidades que tive de crescimento profissional e pessoal.
Desejo, a todos que vão prosseguir, que possam manter viva a esperança na superação das atuais dificuldades. Sempre que sonho com ricas possibilidades futuras para esta nova etapa da minha vida, faço votos para que feliz também seja cada um de vocês. Que os anseios mais profundos dos seus corações, tanto no plano profissional como no plano pessoal, individual, sejam enfim realizados. E que possamos todos ser muito felizes.
Ainda agora à tarde, Sandra Maciel nos entregou, a Juracy, Sydney e a mim, uma coletânea de ricas mensagens. Um presente de grande sensibilidade e beleza. Gostaria então de concluir, lendo para vocês, o que acredito ser um trecho da famosa declaração dos direitos do Homem, de Thiago de Melo. Ele vale naturalmente para os que saem, mas também para os que permanecerão


“Fica decretado que
Agora vale a verdade,
Que agora vale a vida
E que de mãos dadas
Trabalharemos todos
Pela vida verdadeira.”

Um grande abraço a todos. Nos veremos...


José Jucá Júnior
22 de setembro de 1995








domingo, 19 de abril de 2015

Crescer e Acreditar - Ato IV (4/4)



Para concluir, escolhi contar um fato de natureza pessoal, para mim tão marcante que seria inesquecível. 

Era final de ano letivo, e eu estava às voltas com os últimos exames, sendo a disciplina da vez o francês. 

O professor desta matéria chamava-se Andrelino, e era muito exigente! Mas a exigência era um traço comum aos nossos professores, ao qual já estávamos acostumados. 

Andrelino apreciava os alunos mais estudiosos na mesma medida em que era carrasco com aqueles que negligenciavam os estudos.

Era magrinho, baixinho, menor até do que muitos dos meninos seus alunos. Costumava repreender quem fazia algo errado, dizendo: não faça isso, você é um bom menino! Daí veio o seu apelido: Andrelino bom menino.

A prova final de francês impunha aprender a conjugação de 42  verbos. Sim! Quarenta e dois!

Havia uma prova escrita, e depois a prova oral, e esta baseava-se exclusivamente na conjugação de verbos.

A prova oral ocorria na presença de toda a turma. Cada aluno aguardava a sua vez, e quando chamado ia à frente e sorteava o próprio ponto.

Tão logo do globo metálico caía a bolinha numerada, a entregávamos ao professor Andrelino, que verificava em uma relação a que verbos aquele ponto sorteado correspondia.  A cada ponto correspondiam dois verbos.

Talvez por botar alguma fé na prova escrita que já fizera, o fato é que dos 42 verbos eu havia estudado apenas 2: os verbos "croître" e "croire", cujos significados são "crescer" e "acreditar". 

Talvez, para mim, "crescer" estivesse a significar crescer em confiança na sorte, na qual pretendi "acreditar".


O fato é que, convidado a sortear o ponto, o número que tirei correspondeu exatamente a esses dois únicos verbos que eu aprendera, e muito bem. Era aquilo a que se poderia chamar de "saber de cor e salteado".

Senti uma repentina mudança do estado de tensão para alívio, e seguiu-se um contentamento que precisei controlar, para não virar uma alegria incontida.

A segurança, porém, essa sim era adequado demonstrar. Esbanjei então segurança. Conjugaria esses dois verbos como se fosse um francês. Talvez, nem todos os franceses!

O professor Andrelino me levou de um tempo verbal para outro, do jeito que bem quis e entendeu. Até pareceu, a partir de quando percebeu que eu tudo sabia, querer perguntar ainda mais, só para me dar a oportunidade de me exibir.

Quando finalmente se deu por satisfeito, abriu a caderneta, e concedeu-me a nota máxima. Tirei dez! E o professor Andrelino pareceu empolgado. 

Dirigindo-se à turma, ele disse: e então? Vocês viram? Ele mereceu a nota dez! 

Fez uma pausa, e acrescentou: Viram agora o que é estudar?

No Nóbrega, aprendi grandes lições. Até mesmo aprendi que nem tudo que parece, É!

Crescer e Acreditar - Ato III (3/4)




A foto que usei para ilustrar essas reminiscências, mostra como éramos ao cursar o terceiro ano ginasial, no ano de 1960.

A fotografia faz assim! Ela rouba uma nesga do tempo. O faz quase como que por vingança. E o eterniza! 

Numerei cada um de nós, e fiz um exercício de memória ao tentar nomear. Valia relembrar mesmo pelos apelidos, seja lá quais fossem.

Mas não cabem na foto todos os colegas do Nóbrega de quem me lembro! Nela não estão: Oscar, Henrique Fürusteck Notari, Guilherme e Henrique Bastos, Fernandão, Leonildo, Petrônio, Alfredo, Romangeira, Piu, Pepino, Gildo Neves Batista, Stanley Michausky II, Marcelo Lobinho e tantos outros.

Os presentes na foto são:

1- Carneiro Leão

Certo dia, ao reconhecê-lo na autoria de um livro, tratei de ler. Escreve também para jornais. É um excelente contador de histórias e escritor.

2- Alceu Valença

A música popular nordestina e brasileira não seria a mesma sem ele! No colégio gostava muito de jogar basquete. Acreditou sempre no seu talento artístico. E houve uns tempos, antes de encontrar o pleno sucesso, que tinha uma parceria com outro artista da região, no campo musical, Tiago Araripe. Formou-se em direito mas tornou-se mesmo um grande artista, cantor, compositor e, recentemente, cineasta.

3- José Maria

Lembro que nadava muito bem! 

4- Airton Guedes Alcoforado (professor de matemática)

Que tive o prazer de rever anos passados, quando me disse mais uma vez que "a recíproca é verdadeira".

5- Padre Lyra

Não só os índios, mas também os grandes personagens, costumam ganhar um adjetivo para acompanhar-lhes os nomes. E desse modo revelar um pouco mais de si. Assim, temos: Touro "Sentado", Alexandre "O Grande", Aníbal "O Conquistador"... Quem sabe ao padre Lyra, nas suas funções acadêmicas, lhe coubesse chamar: padre Lyra "O Severo".

6- Alexandre da Fonte.

7- Pedro Cansanção

Pense numa pessoa alegre! Tinha sempre um sorriso estampado no rosto. Soube que é empresário em Alagoas, e que mantém essa característica.

8- Jerônimo

Sinônimo de atleta. Jogava muito bem o futebol, mas não somente o futebol, pois tinha grande habilidade para os esportes em geral. Soube que já faleceu.

9- Leonardo Lins Cavalcanti

Foi meu contemporâneo no Nóbrega, e também na Chesf, empresa onde exerci a minha profissão de engenheiro eletricista. Um dia, ao me encontrar, depois de ambos aposentados, comentou que ao me ver, era sempre levado a recuar aos tempos do Nóbrega. Embora tendo se aposentado da Chesf, Leonardo continua a trabalhar na área da engenharia elétrica, enriquecendo, e como,  os quadros da Eletrobras. Atualmente mora no Rio de Janeiro.

10- 

11- Dario

12- Pedro Lagreca

13- Marcos Ferraz

Embora não tenha nunca mais reencontrado Marcos Ferraz, sei que ele está bem. Conheci o irmão dele, Alexandre Ferraz, que me deu notícias.

14- José Jucá Júnior

Minha presença no Nóbrega, estranhamente decorreria de um fato acontecido a 800 km dali, antes mesmo de eu ter nascido. Devo-a em primeiro lugar ao tio avô Tonho, do sítio São José, no Cariri do Ceará. Ele chamou seu filho Pedro, e disse: meu filho, amanhã acorde cedo! O trem para Fortaleza sai do Crato de madrugada. Você vai nele, que é para estudar para ser padre. Padre Pedro se ordenaria jesuíta, e até criaria o Departamento de Psicologia da Universidade Católica de Pernambuco, da qual também foi vice-reitor. A minha mãe, através dele, já que eu atendia tão bem a todos os requisitos, conseguiria uma vaga de bolsista pela qual lá estudei. É muito estranho como fatos que aparentemente nada têm a ver conosco podem influenciar as nossas vidas!

15- Belo

16- José Maria Pereira Gomes

Descobri com admiração que José Maria é irmão de "Antonio Pereira Gomes", meu contemporâneo na Chesf, com quem vim a ter maior aproximação após nossas aposentadorias. Costumamos mensalmente nos reunir, juntamente com outros ex-colegas de trabalho e amigos, para almoçar e celebrar a vida.

José Maria é médico cardiologista, e já me disse que será um grande prazer um dia fazer em mim um cateterismo.

17- 

18-  

19- 

20- Flávio

Lembro que Flávio falava muito, falava alto, e falava ligeiro. 

21- 

22- 

23- Afonso

24- 

25- Milton Catoteiro

Reencontrei Milton em um evento social! Conversamos sobre os tempos do Nóbrega, mas não o relembrei desse seu apelido. Atualmente ele mora em Natal. É médico psiquiatra. 

26- 

27- Carrapeta

28- Edson

29- 

30- Saulo 

Vez ou outra, precisei ser atendido na Clínica Ortopédica dos Acidentados, durante o tempo em que tive moto. Certa vez, fui atendido por Saulo, quando então soube que tornara-se médico ortopedista, um dos sócios da clínica, e professor da faculdade de medicina. Não deve ter ficado um único ossinho daquele esqueleto do laboratório que ele não tivesse decorado, ainda menino, e para jamais esquecer. Atualmente está aposentado.

31- Helio Lima Filho

Helio dividia com Leonardo Lins a classificação de melhor aluno da turma. A minha percepção era a de que Helio parecia estudar muito, o que talvez fosse acentuado pela sua aparência sempre estressada. Nisso contrastava com Leonardo, que aparentava calma, e confundia-se com os demais que encontravam tempo para os esportes. Helio Lima Filho abandonou o curso de Direito na metade, quando descobriu que era ainda maior o seu interesse pela medicina. Nunca mais tive notícias dele.

32- 

33- Luiz Otávio Cavalcanti

Também o encontrei em um evento social, e até trocamos uma meia dúzia de palavras. Ele ocupou cargo de secretário de estado durante um dos governos estaduais, e costuma escrever para jornais sobre temas políticos.

34- Francisco Emanuel Soares

Um dia, perguntei a José Maria (Pereira Gomes) por Emanuel, de quem guardei a imagem do "menino diplomata". Um verdadeiro gentleman, era naturalmente articulado e tinha sempre muitos amigos arredor. Em tempos de internet, não demorou para que José Maria nos colocar em contato, e trocamos e-mails! Emanuel mora em São Paulo, e atualmente é um alto executivo da GE.

35- 

36-

37- Luiz Fabiano

Fabiano era filho de uma senhora que trabalhava na secretaria do Nóbrega. Tinha uma irmã e gostava de jogar basquete.

38- Helio Veloso


39- Marcos Pérez Queirós

Ouvi tempos atrás algumas referências ao nome dele, quando foi deputado federal  pelo estado de Pernambuco.

40- Júlio Maranhão

Um dia, ao visitar o Museu do Instituto Ricardo Brennand, vi algumas peças doadas por Júlio Maranhão, e pensei que poderiam ser do Júlio, nosso colega de turma do Nóbrega. Depois eu viria a saber que foram doações feitas por seu pai, já que nosso colega Júlio lamentavelmente morreu muito cedo, de maneira trágica. 



Por fim, o Colégio Nóbrega hoje não mais funciona. Muitos dos educadores responsáveis por seu admirável padrão de ensino até já faleceram.

Resta o imponente prédio, e na sua vasta área, que se expandia para o outro lado da Rua do Príncipe, funciona hoje a Universidade Católica de Pernambuco.

Entre os padres, alguns assim permaneceram, e outros deixaram a ordem, seguindo diferentes caminhos. Se, por um lado, seus quadros por isso se empobreceram, a psicanálise em Pernambuco teve muito a ganhar com a dedicação de alguns deles a esta área.

Certo dia, terminei por reconhecer à frente do Centro de Estudos Freudianos do Recife, a figura que me fora tão familiar no Nóbrega, do ex-padre Ivan Correia, atualmente um psicanalista de fama internacional.

Continua no Ato IV (4/4).

Crescer e Acreditar - Ato II (2/4).



Também Salgueiro, o nosso professor de geometria descritiva, viria, muito tempo após o episódio envolvendo o padre Borges, a ser mais uma vítima dos birôs sobre estrados no nosso colégio.


Salgueiro era um excelente professor! Mas tinha em comum com o padre Borges o jeito de sentar e inclinar a cadeira, para se recostar na parede.

Quis o senso de observação, e a criatividade de algum "poltergeist", inventar algo que também viria a enfurecê-lo e, mais uma vez, todos terminariam por "pagar o pato".

Quando de volta à posição normal, o professor Salgueiro costumava tocar com as mãos no birô, que inevitavelmente sofria um empurrão para a frente!

Um dia, antes que ele entrasse para dar aula, o birô foi cuidadosamente afastado sobre o estrado, de maneira que seus pés dianteiros de cima dele caíssem ao menor empurrão, fazendo tombar o birô. 

Esse foi outro início de aula esperado com enorme expectativa, e outra vez, deu tudo muito certo! Foi uma alegria geral! Impossível não rirmos, nós que andávamos sempre em busca de diversão! 

Difícil era conter-se diante do pálido Salgueiro, que se refazendo do susto, disse algo que nos ajudaria a parar de rir. Ele disse: A posição  em pé, na sala de aula, é a que o professor escolhe para aplicar prova.

E mandando que alguém fosse buscar papel na secretaria, aplicou um desses exames que por não estar programado, pegaria a maioria despreparada.

Portanto, manter-se com a matéria em dia, teria no Nóbrega o significado de prevenir-se do revide preferido por parte dos professores, em caso de eventuais brincadeiras.

Gostaria que esses e os demais mestres aqui citados, caso venham a conhecer essas minhas lembranças, as vejam como uma carinhosa homenagem pelo que muitas vezes precisaram passar, a fim de contribuir tão bem para a nossa formação. 


Havia no Nóbrega um padre português extremamente nervoso, chamado "Irmão Barbosa", cuja função principal era ficar em sala, a tomar conta dos alunos que cumpriam castigo.

Perdia a paciência com facilidade, quando havia alguma tentativa de conversa de uns alunos com os outros. Atrapalhava-se ao pedir silêncio, repetindo sempre: acabem com o silêncio!

As tentativas de conversas viravam então risos abafados, enquanto ele aumentava o tom: já falei para acabarem com o silêncio!

O professor Paulo, de química, era químico. E para ele, os alunos olhavam com muita admiração e respeito. O motivo era que trazia no corpo marcas de uma explosão decorrente de uma experiência de laboratório mal sucedida. Sempre achei essa admiração que meus colegas a ele devotavam, decorrente de um fato que a tornava paradoxal!

Na realidade não havia um único professor que não trouxesse consigo uma marca, ou que não pudesse ainda hoje ser lembrado por algo de bom que fez, ou até mesmo por algum mal que deixou de fazer. 


Assim, outro de nossos memoráveis professores, o professor de Física, Câmera Lima, era alegre, brincalhão e provocador. Certa vez mandou que resolvêssemos em casa um problema em que propositalmente omitira um dado, sem o qual seria impossível solucioná-lo. 

Também durante as provas, para testar o grau de segurança e auto-confiança dos alunos, costumava alertar para que tivéssemos cuidado com as "cascas de banana" que pusera em algumas questões, as quais embora aparentemente simples, na verdade não eram. Um exemplo de um mal que de fato quase nunca ele fez. 

O professor Mário Cruz, de nacionalidade portuguesa, ensinava português. Lembro de quando dizia: se você quiser enfatizar a sua resposta dizendo não, para fazê-lo de forma contundente, repita três vezes: Não, não e não!

Lembro-me dele quando me oferecem sorvete, ou outras coisas de que gosto muito. Aproveito para dizer: Sim, sim, e sim!


A disciplina de música, era denominada Canto Orfeônico, e o professor chamava-se Isnard Mariano, mas tinha o apelido de Bolinha. Não sei ao certo se por ser gordinho, ou se porque em suas aulas faziam guerra de bolinhas de papel.

Fico feliz de jamais ter participado disso. Hoje, não me sentiria bem! Além de tudo, o professor Isnard era deficiente visual.

O Costa Cavalcanti, professor de matemática durante o curso ginasial, era irmão do então presidente da Hidroelétrica Itaipu Binacional. Era uma pessoa adorável! De uma boa fé que nunca esqueci. 

Adotava um livro de autoria do professor Ary Quintella, do qual prometia selecionar as questões de todas as provas. Presenciei, durante um dos exames, um aluno afirmar que determinada questão não havia sido tirada do livro texto, conforme prometido.

O professor Costa Cavalcanti, com muita calma, voz mansa, e sempre muito paciente, respondeu com naturalidade: tirei sim do livro, e essa questão encontra-se resolvida, à página tal. Quem estudou saberá fazê-la.

Essa indicação era tudo que o autor da pergunta e outros arredor esperavam, para iniciar suas ações dissimuladas em direção à "fila", usando para tal a consulta ao próprio livro na página que agora bem sabiam.

Outro importante professor de matemática, durante os anos de curso científico, foi o Airton Guedes Alcoforado. Grande professor, e muito exigente em sala, culminando com o que pedia nos exames.

Costumava dar aulas de terno de linho branco, em contraste com a batina tão preta do padre Borges. E se o padre Borges me afastou da medicina, o professor Airton, sem saber, me direcionou para a engenharia.

Há poucos anos, encontrei-o em um evento social. Embora ele não pudesse me reconhecer, fui até ele, me reapresentei, e tive o prazer de conversar um pouco. Por não perder o costume, foi que ao dele me despedir, respondeu-me de um modo que me soou muito familiar e me transportou ao passado.

Eu disse do prazer de tê-lo reencontrado. E a mim, ele respondeu: a recíproca é verdadeira!

Belo reencontro!

Continua no Ato III (3/4).

Crescer e Acreditar - Ato I (1/4).


No início da década de sessenta, os colégios particulares mistos ainda estavam fora do horizonte. Meninos eram educados por homens, e meninas por mulheres. Em geral religiosos, e principalmente católicos romanos.

Em Recife, onde passei a morar a partir de março de 1959, os principais colégios, por ordem alfabética, eram: colégios femininos havia o Damas, São José e Vera Cruz. Entre os masculinos, Marista, Nóbrega e Salesiano.

A tradição jesuítica de competência educacional, levava a que, entre os colégios masculinos, a classe rica ocupasse uma quantidade considerável de vagas no Colégio Nóbrega.

Isso tornaria a mudança que vivi, ao sair de uma pequena cidade provinciana para uma grande capital, ainda mais contrastante.

Ao estudar no Nóbrega, a partir do segundo ano ginasial, contribuí para que o seu quadro de alunos pudesse ser considerado representativo da sociedade como um todo, pela presença nele de estudantes de diferentes classes sociais.

Os colegas ricos eram em maioria originários de famílias de grandes usineiros ou políticos do estado, ou de políticos usineiros.

Um dia, alguns deles fizeram tão grande insubordinação, que chegou a envolver a profanação da igreja do colégio, atualmente considerada santuário de peregrinação pelo Vaticano.

Só muito tempo depois eu pude entender porque um caso passível de expulsão sumária resultou apenas em punições relativamente brandas.

Eles eram ricos, políticos e poderosos.

O aspecto disciplinar, contudo, era levado muito a sério pelos padres! Certo dia, após o recreio, por não ter atendido prontamente à chamada para o retorno à sala de aula, fui punido. 

O castigo foi ser obrigado a comparecer ao colégio fora do expediente das aulas, e permanecer por algumas horas em uma sala, junto a outros colegas que ali estavam por infrações diversas.

A excelência do laboratório de ciências do Nóbrega me fazia lembrar o Colégio Diocesano do Crato, onde o laboratório de ciências também era valorizado. Em ambos havia um esqueleto completo, e a orientação da disciplina era voltada sobretudo para a área das Ciências Médicas.

Por uns tempos até pensei que terminaria estudando medicina, pois até já começara a decorar os ossos todos do corpo humano, a partir das mãos.

Foi certamente por isso que décadas depois, ao sofrer um acidente de moto que resultou em fratura, não fiquei surpreso quando o médico anunciou: fratura exposta, no terço médio do rádio. 

Não viria a ser médico, por dois motivos principais: o primeiro, teria sido o padre Borges, meu professor de Ciências, que involuntariamente, por não ter a melhor didática, me motivou a tomar outra direção. O segundo, foi que eu continuava a desmaiar ao ver sangue, o  que seria péssimo se viesse a acontecer na presença de um paciente.

A propósito, o padre Borges era alto, calvo no topo da cabeça e usava sempre uma batina preta, em contraste com a maioria dos padres jesuítas, seus colegas de ordem, que preferiam as de cor bege.

Os birôs dos professores em sala de aulas ficavam sobre estrados para que, sentados, tivessem uma boa visão geral dos alunos, e estes também do professor.

O padre Borges costumava, ao sentar, inclinar a cadeira, que ficava apoiada apenas nas pernas de trás. Encostava então a cabeça na parede, e nessa posição, que sempre me pareceu privilegiada, aguardava que toda sala estivesse em completo silêncio, para finalmente fazer a chamada e dar início à aula.

Certo dia, antes do início da aula, alguém teve a ideia de desenhar na parede por trás do birô, onde era esperado que como sempre ele encostasse a cabeça, um par de belos chifres.

Não me lembro de que, até então, o início de uma aula tivesse despertado tanta excitação em nossa turma. A ansiedade era geral, e portanto ninguém pagaria injustamente o castigo que viria depois.

Deu tudo muito certo! Isto é, errado mesmo, só deu para o aborrecível padre Borges, que por qualquer coisa se irritava. Imagine havendo uma justíssima razão!

Ao colar a cabeça no lugar habitual da parede, por ela já esperava aquele desenho bovino, ou satânico, que lhe compôs a figura, e disparou as gargalhadas simultâneas de toda meninada. Ainda mais hilariante foi a vítima demorar a perceber o ridículo por que passava.

O padre Borges era pálido, mas de súbito fez-se rubro e encolerizado. Não houve aula nesse dia, a princípio, pela espera de que o autor se apresentasse, o que não aconteceu. Em seguida, porque toda a turma terminaria punida, com a aplicação de uma prova surpresa de ciências, em lugar da aula.

A comunicação oficial da indisciplina pelo padre Borges à sub-diretoria do colégio, à época a cargo do simpático padre Santana, incluiria os seguintes termos: ... portanto, peço a punição desta turma, por ter desenhado chifres à "crayon", na parede da sala de aula.

Alguns padres tropeçavam nas dificuldades do ofício, mas a maioria, não!

Continua no Ato II (2/4).

O Sexto Sentido.

Uma Volta ao Mundo, Dançando!