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terça-feira, 14 de abril de 2015

Eureka!



O campus da antiga e imensa Universidade de Manchester fervilhava de estudantes de quase todas as partes do mundo.

No coração do seu Instituto de Ciências e Tecnologia, há uma impressionante estátua que até hoje me atrai, por sua adequação ao ambiente: Arquimedes!

Aquele bloco de pedra representando o memorável inventor, físico, matemático, filósofo e engenheiro, que saindo da banheira fascinado pela descoberta da lei da impulsão, grita: EUREKA!

Arquimedes ali permanece estático em seu momento de êxtase, há décadas, à frente do prédio onde mais se aglomeram os estudantes: o Diretório Acadêmico, ou "Student Union".

Ali me parecia a babel preferida pelos que, em certos momentos, principalmente após as aulas, agrupavam-se para se dividir em torno de diferentes atividades dos seus interesses.

Certa noite estando eu à frente do prédio, presenciei através da sua ampla fachada envidraçada, uma cena emblemática da Inglaterra que então eu descobria.

Enquanto observava, lembro que pensei: talvez jamais esqueça o que estou vendo!

Em dois andares contíguos, havia duas salas imensas, uma localizada exatamente sobre a outra.

Na sala de baixo, uma "Quiet Room", onde os estudantes arredor de mesas, dispostas a certa distância umas das outras, quedavam-se imóveis em profunda concentração em suas leituras.

Na sala do andar de cima, as luzes estroboscópicas, a banda pop, cervejas e os movimentos de dança, em contraste que maior não poderia haver, com o que acontecia poucos metros abaixo.

O respeito, e sobretudo a capacidade de convivência entre os diferentes, já se tornara ali uma característica sempre muito presente.

Na Inglaterra do início da década de 70, os folhetos que recepcionavam os novos estudantes do UMIST (University of Manchester Institute of Science and Technology), eram elaborados em bases informativas do mais amplo espectro.

Não seria possível ler um dos seus itens sem lembrar de Alan Turing, Oscar Wilde  e outros homossexuais que naquele país viveram, e cujas vidas foram arruinadas pela repressão, da qual estariam livres se tivessem nascido, respectivamente, 30 e 80 anos depois.

Dizia um dos itens: se você é um estudante homossexual, temos a Associação dos Estudantes Homossexuais... Informava então local, horário, periodicidade das reuniões e telefone para contato.

Pela presença internacional em Manchester, representada por alunos de todos os continentes, mais do que uma imersão na cultura inglesa, ali era possível através de muitos dos colegas, satisfazer curiosidades sobre a cultura de diversos países muito diferentes.

Assim é que guardo na lembrança a admiração com que alguns de nós, jovens estudantes ocidentais, olhávamos para o nosso colega Libanês, Banun. Ele era muçulmano, e um dia comentou ser casado com três mulheres.

Depois ficaríamos tristes e pensativos, quando passamos a nos questionar se isso valia mesmo a pena, considerando que, de repente, Banun sumiu da universidade, porque estourou um conflito no Líbano ao qual ele foi obrigado a se integrar.

Havia um chinesinho magro e despenteado, que andava arrastando os pés pelo chão, e que dava cochilos enormes durante as aulas. Era a um ponto de quase bater com o queixo na carteira. 

Um dia me perguntou se eu teria algo para ele ler e assim se informar sobre o Brasil. Eu levei para ele a única coisa que encontrei, uma edição especial da Revista Manchete sobre o país. 

Ele folheou a revista para lá e para cá, e rapidamente me devolveu dizendo que ali só havia propaganda. Ele tinha razão. Era um chinês inteligente, esclarecido e mal educado.

Aproximar-se de um cubano, e indagar sobre questões da vida em seu país, naquela época, era algo que parecia equivaler a uma meia visita a Cuba.

Descobrir identidade com os persas, e com um deles fazer amizade, também foi inusitado. 

Zia Ziai viera de carro, no seu pequeno mini Austin, da Pérsia até a Inglaterra, para estudos sobre a preservação do meio ambiente. Trouxera muitos tapetes persas, para em caso de necessidade vendê-los.

Nós nos visitávamos, e foi através dele que pela primeira vez comi pistache, aprendi alguns detalhes sobre a manufatura de tapetes persas, e conheci alguns "Pubs" interessantes, naturalmente tudo isso antes do início das aulas.

Em um desses "Pubs", frequentado pelas mesmas pessoas desde o início do século XX, quando ainda eram jovens, a média de idade dos frequentadores parecia agora beirar os 90 anos!

Ziai me preveniu que os tapetes persas mais valiosos são os mais antigos, cujos fios, quando examinados em detalhe, parecem ainda mais unidos entre si. É o aspecto que adquirem após longo tempo de uso.

Alertou então, para que fabricantes desonestos, põem seus tapetes na calçada, para que os transeuntes passem por cima deles, e assim logo adquiram a aparência de tapetes antigos, embora que igual aos antigos só tenham o preço.

Esquisita era a figura do mais rico dos persas, filho de um dos maiores industriais da Pérsia à época do Xá Reza Pahlavi.

Seu sapato de salto alto, suas calças agarradas às pernas, seus cabelos até os ombros, terminaram por lhe conferir um apelido.

O curioso é que "bichaldo" estava permanentemente cercado por um séquito de não menos que seis pessoas, estando ele sempre no centro. 

Em meio a tanta gente de todas as partes do mundo, eu terminaria um dia, ao visitar pela primeira vez o chamado Ferranti Building, local do "Staff" na área de Sistemas Elétricos de Potência, a finalmente encontrar um brasileiro no norte da Inglaterra.

Como tudo é relativo, acostumei-me a tratá-lo por Mestre Barros, pois era muito mais velho que eu, queixando-se sempre de já ter 42 anos!

Mestre Barros, além de brasileiro, era, assim como eu, natural do Ceará, o que veio a confirmar o sentimento de que cearenses estão presentes em toda parte. Talvez onde menos estejam, dizem alguns, seja no próprio estado do Ceará.  

Os meses passavam, e eu já me sentia cada vez mais à vontade na minha nova vida, em especial pela gradativa familiaridade com a língua.

Foi quando certo dia dirigiu-se a mim um inglês, que depois saberia ser um contínuo da universidade, e me disse algo que não entendi.

Pedi então para que repetisse, mas, outra vez, não entendi. Pedi-lhe então que falasse mais devagar, o que não adiantou. 

Senti-me a principio um tanto quanto frustrado, pois já fazia um certo tempo que eu havia chegado!

Resolvi então desistir, e disse-lhe: o senhor me desculpe, mas não consigo entendê-lo!

Foi quando o homem falou de modo para mim compreensível, ao perguntar: Você não é egípcio?

Ele me desejara bom dia em árabe.

O que se seguiria terminaria digno de menção.

Ele então me perguntou de onde eu era, e respondi: sou do Brasil, sou brasileiro.

Ah!!! Exclamou então o homem, dizendo: Buenos Dias!

Expliquei: no Brasil falamos Português. Buenos Dias é espanhol!

Imediatamente ele insistiu: Oh! Bonjour!

Eu lhe disse: não! Bonjour é "good morning" em francês!

Nova tentativa dele então: Buongiorno!

Disse-lhe: desculpe mas Buongiorno é "good morning" em italiano!

E acrescentei: em português, diz-se "Bom Dia".

Ele olhou para mim com uma expressão de grande espanto e admiração, e perguntou: VOCÊ FALA TODAS ESSAS LÍNGUAS? 

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